quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Volume-11 lista seus discos da década - parte 5


2004

Tortoise - It's All Around You
6 de abril de 2004












Depois de ter estourado com TNT, e encontrado uma confortável posição num tipo de lounge eclético, o Tortoise poderia descansar, mas felizmente não o fez. Em All Around You ousam uma aproximação mais dramática, urgente daqueles improvisos que os definem. Um disco menos acessível que o TNT, com menos flertes jazzísticos, mas desbravador das possibilidades do gênero. As estruturas são livres porém narrativas e antecipam um clímax que quando chega é sempre surpreendente.
Ponto Alto: A produção e a pesquisa de timbres inspiradora, sem excessos e sagaz. Uma verdadeira fonte de criatividade.



Arve Henriksen – Chiaroscuro
8 de junho de 2004












O segundo disco do trompetista, membro do Supersilent e do excelente selo norueguês Rune Grammofon, é simplesmente mágico. Busca texturas orgânicas e vôos etéreos com a sabedoria de quem encontrou a paz interior. Imprime em seu trompete um fôlego que o aproxima da flauta japonesa, e sua técnica vocal é reminiscente do canto difônico tuvano, de modo que, por vezes, sua voz e seu trompete são indistinguíveis.
Ponto Alto: Sintetizadores e percussões (Jan Bang e Audun Kleive) contribuem para uma poderosa ainda que suave atmosfera. A música induz um transe enteogênico e nos confronta com nossa insignificância cósmica.



Neurosis - The Eye of Every Storm
29 de junho de 2004












Talvez The Eye of Every Storm não seja o disco mais indicado para começar a se embrenhar no pântano escuro e lamacento chamado Neurosis. É um disco fenomenal, não entenda errado, mas único na carreira da banda, mais renomada por seus trabalhos mais sujos, barulhentos. Mais uma vez, tal afirmação pode levar à compreensões equivocadas, The Eye of Every Storm não é, por nenhum exercício da imaginação, um disco leve, mas seu peso não conta apenas com o peso das guitarras, das baterias tribais ou dos gritos de ambos vocalistas, Steve von Till e Scott Kelly. Nele, o peso vem da relação entre as partes leves e as pesadas, vem da rajada de distorção que emana das profundezas nebulosas das passagens enganadoramente calmas. As músicas variam entre 8 e 12 minutos, apenas uma fica abaixo da marca de 6 minutos, porém nunca soam maiores do que deveriam ser, são obras irrepreensíveis de um tipo de metal que até então não havia se escutado, um metal que se preocupa com outras coisas além de barulho, peso, agressão, mas tem também em seu foco a ambiência, a idéia de paisagens sonoras, e as do Neurosis, como sugerido pelo próprio nome da banda, não são nada pastoris, bucólicas ou pitorescas, mas escuras, insalubres e abrasivas.
Ponto Alto: O trio de músicas que abre o disco, Burn, No River to Take Me Home e The Eye of Every Storm, chegando, juntas, à quase meia hora, estão entre as melhores composições do Neurosis ou de qualquer banda de metal, ouvir é gostar.



Dillinger Escape Plan - Miss Machine
20 de julho de 2004












Não há dúvida. Miss Machine é o Bitche's Brew do metal. Deixando pouco a desejar e ainda menos a imaginar, The Dillinger Escape Plan, com seu disco de 2004, apagou os limites entre gêneros, misturou a agressividade do hardcore, melodias punks, dissonâncias pós punk, a precisão do mais técnico metal, passagens e frases de jazz, a atitude de um Faith No More em esteróides e expandiu ainda mais os limites de seu som, que se recusa à ser resumido por uma nomenclatura. Seja Math, seja Post-Hardcore, Miss Machine explode dos seus alto falantes (ou headphones) e não deixa sombra de dúvida que, desse momento em diante, qualquer banda que use um pedal overdrive terá que suar muito suas roupas pretas pra te impressionar novamente.
Ponto Alto: Ao primeiro grito e acorde de Panasonic Youth percebe-se que o que está à sua frente não é algo corriqueiro. Felizmente, Greg Puciato, o marombado escolhido para substituir o vocalista original, é capaz de gritos e arroubos ainda mais impressionantes e contagiosos. We Are the Storm não é apenas uma descrição cabível à banda, mas uma música que exibe, em trajes de gala, tudo que ela tem a oferecer.



Pig Destroyer - Terrifyer
12 de outubro de 2004












Difícil descrever esse disco e fazer justiça à sua genialidade. No papel, Pig Destroyer é só mais uma banda de Grindcore, na prática, é uma imponente e aterradora avalanche sonora, uma metralhadora de riffs, distorção, gritos e letras perturbadoras. Terrifyer é, sem sombra de dúvida, a expressão máxima do que o Grindcore pode ser e, como todo álbum que isso representa, o é por transcender todos os limites do gênero. No lugar de vocais guturais, gritos distorcidos e assombrosos e letras que surpreendem; no lugar de riffs incompreensíveis, linhas de guitarra memoráveis, dignas das grandes bandas de metal da história; substituindo uma bateria que preza apenas velocidade, ritmos sincopados, frases complexas e, claro, também a boa e velha "metranca". Em Terrifyer, Pig Destroyer atingiu o ápice, antes dele, o gênero capengava entre esporádicas manifestações de inventividade, algo retificado pelo grupo à partir deste magnífico álbum e posto em prática em todos os que o seguiram. 2004 foi um ano bom para o metal.
Ponto Alto: Da intro até a nota final do disco, Terrifyer é uma obra de arte em agressividade, incansável em seu ataque contra a moral e os bons costumes. Ressaltar essa ou aquela música, enquanto possível, é tirá-la de seu contexto e decrescer o valor final da obra. No entanto, Scarlet Hourglass e Crippled Horses são um bom portal de entrada para o ouvinte destemido.

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