sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Volume-11 lista seus discos da década - parte 6



2005


Gogol Bordello - Gypsy Punks: Underdog World Strike
9 de agosto de 2005












Eugene Hütz e seu grupo, Gogol Bordello, lançando em 2005 Gypsy Punks: Underdog World Strike, colocou além de qualquer discussão que os Bálcãs, além de mulheres sobrenaturalmente belas, também pode produzir punk de altíssima qualidade. Com muito bom humor, guitarras, acordeões, violinos, vocalistas/dançarinas para encher os ouvidos e os olhos, tocam um tipo de punk rock bastante peculiar, tirando influências de todos os cantos do mundo, de seus membros oriundos de países diversos, contando histórias bem humoradas dos marginais do status quo.
Ponto Alto: O multiculturalismo da banda, bastante representativo do cenário global atual, cria uma sensação de estranhamento e familiaridade ao mesmo tempo, as letras de Eugene contam histórias sempre divertidas de adoráveis párias, marginais (sem o sentido pejorativo) espirtuosos unidos pelas dificuldades da vida dos menos favorecidos. Santa Marinella, cantada em ucraniano e italiano, é uma das músicas mais interessantes e contagiantes do álbum.



Jaga Jazzist - What We Must
19 de agosto de 2005












O mundo não acabou, o medo era infundado, e é hora de mover adiante. Nesse ano a música foi insuflada de uma sobrecarga de energia pela superbanda norueguesa Jaga Jazzist. Um mundo de possibilidades se abre quando os egos se comprazem em deixar a música brilhar em todo seu potencial. A liberdade do jazz e do progressivo a amplitude timbral dos sintetizadores, a força insubstituível da guitarra, as lições rítmicas da música eletrônica. Tudo isso conformado por um maestro invisível, porém de mãos firmes, sem aquela desconfiança que mostra as engrenagens no processo, os tropeços do improviso, para que o intelecto se distraia.
Ponto Alto: São verdadeiras obras primas de amantes da música, divertindo-se em diluir fronteiras e ampliar horizontes.



Earth - HEX: or Printing in the Infernal Method
20 de setembro de 2005












Este é mais um daqueles discos impossíveis de classificar. Earth é tido como um grupo de doom, mas estão tão longe disso quanto se pode imaginar. Em seus primeiros discos, pelos quais são mais reconhecidos, a banda, que, na verdade, consiste no guitarrista Dylan Carlson (injustamente mais renomado por ter sido o amigo de Kurt Cobain que comprou a arma que seria usada em seu suicídio do que pela sua banda) explorava um tipo de drone metal que desafiava até os ouvidos mais intrépidos, suas músicas, que duravam dezenas (no plural) de minutos raramente passavam de duas, três notas, tocadas leeeeeeeeeeeeeeeentamente e repetidas à exaustão. Mudando um pouco seu compasso, em 2005 Dylan lançaria HEX, um disco que marca por possuir algo que pode ser chamado "músicas de verdade". Isso não significa que a lentidão característica do Earth foi abandonada, cada música se arrasta, evolui em seu próprio tempo, como uma larva no casulo, sem pressa, até atingir (ou não) seu clímax, mas obedecem uma estrutura um pouco mais formal. As músicas de HEX trazem à lembrança as composições de Neil Young para o filme Dead Man, de Jim Jarmush, e, certamente, não por acaso, sendo que o subtítulo de HEX - Printing in the Infernal Method - é uma linha do filme, inclusive usada por Neil em sua brilhante trilha sonora. As músicas de HEX seriam, se fossem também por sua vez uma trilha sonora, cabíveis em um filme sobre um velho oeste assombrado, melancólico, sombrio, nefasto, fantasmagórico e apocalíptico. Dylan deixa claro que, tanto quanto Young, se preocupa não apenas com o peso de sua guitarra, mas também com timbres e nuances e, tanto em HEX quanto em seu lançamento subsequente (o ainda mais brilhante The Bees Made Honey in Lion's Skull), atingiu um tipo de tranquila genialidade e inspiração poquíssimo comuns ao metal.
Ponto Alto: A obra como um todo é fantástica. Naturalmente, o que se destaca é a guitarra de Dylan Carlson, suas composições incomuns e brilhantes. Qualquer um que se interesse pelo instrumento deveria, obrigatoriamente, ouvir HEX e re-aprender um pouco para o que serve a boa e velha abusada guitarra elétrica.



Mew – And the Glass Handed Kites
18 de outubro de 2005












O ritmo criativo do Mew é trienal. Em 2005, no entanto, And the Glass Handed Kites pretensiosamente empinou da Dinamarca e cortou amplos céus com um disco perfeito. O pop onírico atingiu o status de arte em canções de impacto permanente. Com progressão, narrativa, ritmo e acima de tudo imaginação o disco é composto por diversas tonalidades afetivas lançadas num fundo de serenidade, completude. Tendem para os êxtases muito bem expressos pela agudez da voz e contundência das melodias de Jonas Bjerre, um vocalista que privilegia a intuição a técnica. O guitarrista é um gênio do contratempo com timbre de trovão, e a pegada e ritmo do baixo e bateria sustentam a banda com segurança às alturas estratosféricas.
Ponto Alto: Mew é uma banda que claramente trabalha com afinco em todas as etapas, da criação a produção, e pela originalidade das estruturas, timbres e harmonias merecem um lugar na linha de frente do rock dos anos 2000.



Silver Jews – Tanglewood Numbers
18 de outubro de 2005












O retorno de Berman depois de uma ressaca de quatro anos é triunfal. Seu gênio poético ganha a colaboração de uma banda potente (e também de sua simpática e amorosa companheira), capaz de traduzir sua ironia e capacidade imagética que anteriormente o lo-fi fazia, ou encarregava nossa imaginação de fazer. A primeira música, Punks in the Beerlight, introduz bem a dimensão da experiência que seguirá: uma celebração antêmica cheia de alegria e dor da vida em seu máximo, do bêbado teimoso que ri da própria desgraça e aponta o dedo na cara de deus, sem perder a curiosidade de se aventurar e chegar ao fundo.
Ponto Alto: Graças ao lirismo mundano e a voz desenganada de Berman, temos a chance de sentir a urgência de um artista movido apenas pela sua humanidade, não importa quão vulnerável, confuso ou trágico isso seja.

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