domingo, 3 de janeiro de 2010

Volume-11 lista seus discos da década - parte 7



2006

Helios Creed - Deep Blue Love Vacuum
4 de abril de 2006












A genialidade e a engenhosidade, quando na juventude, podem ser fardos para o resto da vida. Helios Creed foi membro de uma das bandas mais originais e revolucionárias dos anos 70, o Chrome, com sua dissolução carregava o peso de ter que manter-se relevante e indomável, caso se propusesse a continuar a fazer música. Em 21 anos de carreira solo, de 1985 até 2006 (ano de seu último lançamento), em 21 anos, lançou 19 discos e, invariavelmente, tudo que lança é inspirado e repleto de inventividade. Deep Blue Love Vacuum talvez seja, em sua vasta carreira solo, o mais similar aos bons tempos do Chrome que Helios já soou em muito tempo. Sua guitarra é selvagem e lancinante, soterra seus vocais distorcidos lembrando muito a época que Helios Creed e Damon Edge abusavam e assolavam ouvidos e enche de esperança o fã incoformado com a extinção da avassaladora Chrome.
Ponto Alto: Se você gosta de Chrome e não for sugado imediatamente por Beginning of Light, há algo de errado contigo. O álbum é perpassado pelo clima de rock da era espacial, às vezes soando como um Hawkwind contemporâneo, às vezes apenas matando a saudade incrível do pioneirismo do Chrome, mas a todo momento contagiando e deixando claro que Helios ainda sabe o que fazer quando empunha sua guitarra.



Built to Spill - You in Reverse
11 de abril de 2006












Talvez não haja nada tão incerto e volúvel quanto a estética do rock indie, moldada tanto à frivolidade juvenil quanto às aspirações de rockeiros de classe média e meia idade. O estilo que não é um estilo nunca foi um a me comprazer, sua aparência perdida entre um obsequioso esnobismo intelectual dos subúrbios americanos e uma simulação de sentimentos nobres e lânguidos frequentemente rechaça minha sensibilidade, desenvolvida em ambientes mais inóspitos. Contudo, existe uma banda chamada Built to Spill que, entre outros, lançou, em 2006, mais um disco notável em uma carreira de discos notáveis, You in Reverse. O time formado por Doug Martsch e Brett Netson (do Caustic Resin) eleva sem esforços a natureza indie em pequenas doses de beleza rústica, quase bucólica, sublimando o cotidiano provinciano, transformando o mundano em memorável e ganhando nosso coração no processo.
Ponto Alto: As guitarras de Netson e Martsch interagem com incrível facilidade e fluência, criam não só riffs simples e contagiantes, mas também ambiências e melodias que são complementadas por letras precisas e preciosas. É difícil selecionar um disco do Built to Spill como favorito, mas é fácil começar com o pé direito quando pés direitos são tudo que se tem, You in Reverse é o que sempre recomendo para quem ainda não tem o prazer de conhecê-los, foi o álbum que me fez, de uma vez por todas, me apaixonar pela banda.



Grizzly Bear – Yellow House
5 de setembro de 2006












O segundo disco do Grizzly Bear é um prodígio de concepção. Com uma linguagem clássica que ecoa das raízes do folk , da canção popular e de grupos vocais, através de artifícios modernos, utilizados como para captar fantasmas, constroem com as mais sublimes reminiscências da infância um mundo encantado, bucólico e terno. Anos luz distantes de clichés indies alimentam-se de si mesmos e florescem efusivamente. São ao mesmo tempo autores ambiciosos e personagens multifacetados de um conto de fadas sonoro, com harmonias de tirar o fôlego, progressões hipnóticas e uma atmosfera antigravitacional.
Ponto Alto: Quando submetidos à análise, seu encanto aumenta: O todo é uma majestal projeção da soma das partes e não conseguimos privilegiar nem um elemento, nem o coro poderoso de vozes, nem as melodias complexas, ou os acordes corajosos de guitarra, nem o som do vento lá ao fundo. Simplesmente perfeito.



Sparklehorse - Dreamt for Light Years in the Belly of a Mountain
25 de setembro de 2006












Cinco anos após o disco que marcou o retorno de Mark Linkous de uma experiência que certamente ele gostaria de esquecer, Dreamt for Light Years chegou para sedimentar de vez o nome do Sparklehorse como um dos maiores expoentes dessa faceta onírica do pop. A voz diáfana de Linkous entoa melodias frágeis, quase rudimentares em pequenas gemas brutas de beleza idílica.
Ponto Alto: O clima por todo o disco é de sonho diurno, Getting it Wrong é a perfeita balada maculada para um possível amor despedaçado.



Mission of Burma - The Obliterati
2 de dezembro de 2006












Punks perto dos 50 se transformam em anacronismos semoventes, crescem e amadurecem numa cultura que geralmente obsta-se à um pleno desenvolvimento intelectual e tendem à perseguição eterna do valor de choque que lhes era tão natural quando jovens. Felizmente, alguns garotos à frente de seu tempo, quando o punk ainda agonizava nas camisetas inglesas, já haviam inaugurado o pós punk, e com uma boa injeção de massa encefálica ao estilo, insuflaram as velas de algo muito maior e cheio de potencial. Uma das bandas mais emblemáticas do gênero, o Mission of Burma, calhou de lançar apenas um disco em sua breve vida, o VS, em 1982, e então sumirem do mapa. Voltaram com o segundo disco apenas em 2004, 22 anos depois, e OnOffOn era um disco fantástico. The Obliterati, que surgiu em 2006 talvez seja mais impressionante que seu predecessor por ser a prova cabal de que, mesmo envelhecidos, mesmo 24 anos depois de seu ponta-pé inicial, Roger Miller, Clint Conley e Peter Prescott ainda são capazes de se diferenciar da caterva de punks modernos e também dos enrugados e que nada de bom que fizeram em todo esse tempo foi só sorte.
Ponto Alto: A pontência característica da banda continua intacta, como as primeiras notas de 2wice deixam óbvio. Nas 14 músicas que se seguem, injeções intravenosas ininterruptas de adrenalina e inventividade impelem o mais frio dos fãs ao esboçar de um sorriso e querer saber as letras para cantar junto. Punks grisalhos, eis algo pra justificar ainda suas calças rasgadas.

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