quarta-feira, 16 de julho de 2008

A Alegoria do Ouvir

Como uma breve e suave lufada de uma brisa austral filtrada através da soturna fábrica de uma túnica mortuária. Como a viagem espirítual de um simples camponês de terras antípodas por paisagens exóticas e desconhecidas. Como "o som da chuva caindo através de tudo". Essas são as analogias que encontro, e que empresto, para tentar traduzir em palavras a simples experiência irisada contida nos míseros quase 55 minutos de TEMPLE IV, segundo álbum solo de ROY MONTGOMERY, certamente o guitarrista mais expressivo e original a sair da Nova Zelândia.
Temple IV consiste apenas em Roy, uma guitarra, um 4-track, muita inspiração e um pouco de auto indulgência. Tal fórmula, que já havia funcionado para outro músico antes dele (Manuel Göttsching e seu memorável e sublime Inventions for Electric Guitar), parece querer, e conseguir, redefinir o uso da guitarra, traçando caminhos muito mais sutis, delicados e profundos do que normalmente outros guitarristas fazem. As experimentações com timbres, texturas, reverberações, sobreposições, climas, estéticas, nuances e técnicas, combinadas ao estado espirítual e sentimental de um homem de talento e sensibilidade incomum, no lugar de simples notas, acordes e melodias, são o que compõem e fazem de Temple IV um dos mais raros e inigualáveis discos que se tem notícia na até então algo breve, porém tortuosa e incerta, história do que se convencionou chamar de Rock.
Lançado em 1996, Temple IV, com suas músicas tendo títulos como "Jaguar Meets Snake", "Jaguar Unseen", "The Passage of Forms" e "The Soul Quietens", em diversos momentos soa como um registro ancestral de civilizações desaparecidas, o verdadeiro opus de uma mente criativa pura e elevada supostamente impossível de se encontrar em nossos tempos.
Nesse disco, muito mais do que em seus trabalhos anteriores e posteriores, Roy parece nos propôr, ou até mesmo nos guiar, por uma viagem, uma peregrinação, densa, bela e, por vezes, assombrosa, da qual se torna impossível não guardar algo no fundo de sua alma, algo que, como aqueles cafonas óculos 3D de lentes coloridas que amávamos enquanto crianças, lhe proporciona uma perspectiva inédita, insuperável, no entanto efêmera e furtiva, da beleza, e até da tristeza, contida na experiência que chamamos de viver.


Roy Montgomery - Goodbye Mrs D'eath
(do disco Inroads)



Roy Montgomery - Temple IV









01 - She Waits on Temple IV
02 - Depatring the Body
03 - The Soul Quietens
04 - The Passage of Forms
05 - Jaguar Meets Snake
06 - Above the Canopy
07 - Jaguar Unseen


Discografia (solo):

Scenes from the South Island (1995) * * * *
Temple IV (1996) * * * * * √
An Now the Rain Sounds Like Life is Falling Through it (1998) * * * * *
True (1999) * * * *
Allegory of Hearing (2000) * * * * *
Silver Wheel of Hearing (2001) * * * * *
Inroads (2007) * * * * * √

2 comentários:

bruno__________ disse...

gosto muito de Dadamah, mais uma das bandas do roy montgomery, que tem um disco que abrange praticamente todo o material lançado pela banda - this is not a dream. música etérea.

CPJr disse...

outro tambem muito bom do Roy M é o Hash Jar Tempo...