terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Calla e o Torpor


Diletantes depois dos 30 tornam-se sujeitos insuportáveis. É quando notam que nunca responderam muito bem à grande questão: “por que não tentar?”. E o resto do mundo parece cobrar com juros o tempo que se gastou no ócio que jurava ser criativo, o pobre insolente não tem sequer algo de concreto nas mãos, o que leva a uma indócil desconfiança da originalidade de qualquer um, e um senso inigualável de oportunidade para longas discussões em torno de tópicos polêmicos, nas quais sempre assumirá o papel do reacionário cínico. Se ele ainda morar na casa dos pais, então... muito cuidado ao lhe dar qualquer atenção. Pois a essa altura, ele já tem uma biblioteca musical teramétrica, e é capaz de fazer Top 100 sobre qualquer tema esdrúxulo apenas para irritar o interlocutor desavisado. Não há pessoa mais triste. É um retrato esmaecido de como uma nobre paixão pode se tornar masturbação compulsiva. Críticos de arte tendem a ser possuídos por esse Pathos. E sem grandes elucubrações penso que a cura é bem simples: não se levar muito a sério.
O século XIX talvez reservasse lugar para saraus em que se debatiam questões estéticas com finalidades humanistas. Hoje em dia não acreditamos mais em nenhuma criação perene. Queremos apenas ser afetados de uma forma que não nos modifique. Queremos no máximo ser justificados, representados, fazer parte da normalidade, por mais aberrante que seja. E se tratando do Universo egocêntrico do Rock, claro, queremos também nos sentir Reis de alguma coisa, do barulho, do bairro, de uma dimensão aloprada qualquer, das viagens psicodélicas, das loiras peitudas. É difícil encontrar alguma substância subtraindo-se uma insistente energia, elétrica ou humana, na confecção dessa parafernália rudimentar que é o rock. De fato, parece que os Beatles já anteciparam todas as possibilidades. A história do Rock foi escrita por eles. A música eletrônica, que marcaria o fim dessa história, apenas se utilizou de tecnologia para fazer das canções algo mais elementar, atomista, acéfalo. E se engana quem acha que música eletrônica não é orgânica. (Stockhausen: ainda não sei se é um gênio, um chato, ou um gênio chato). Nem sei também se uma dia arte vai servir a algum propósito que não seja esnobe, ou uma banal ilusão de individualidade e bom gosto, e espero de coração que o tempo que gasto na apreciação sirva ao menos para me tornar mais perceptivo e aberto.
Cuspidas essas bolas de pêlo, posso apresentar a banda que me trouxe a essa reflexão. De início me cativaram os discretos harmônicos na guitarra, e os charmosos cochichos vocais, mais especificamente da música Customized, no disco televise, da banda Calla. Aos poucos tornou-se evidente que conseguem iludir o ouvinte desatento. A música que ouvimos na superfície é apenas um disfarce lúgubre. Há mesmo algo de festivo sufocado lá no fundo. Fui conferir o primeiro disco para descobrir a origem dessa farsa e lá estava. O disco epônimo revela a essência fantasmagórica que apenas ronda os outros discos. Trata-se de loops, texturas e programações eletrônicas, enfeitadas de guitarras reverberadas e batidas sobressaltadas. Scavengers, o segundo disco introduz o formato de banda propriamente dita. O baixo é violento como dub, e as músicas se perdem em divagações pós-rock. A voz enforcada é ainda marcante. Algumas músicas carregam uma marca sórdida (Traffic Sound). As letras são abstratas, como cifras de um mundo em torpor, sem força para se materializar...

Over, trip, and walk

Crawl and call me up

Against a simple thought I thought I had

You, inside my arms

Inside my hands

Paralyzing every sense I've ever had

Over silent talk

Why'd She pick me up

Arnold in the backseat

sitting silenty

Tracing passing lights

Tremble on with me

Dreaming of a simple life We'll never see

2 comentários:

. disse...

Muito bom vosso blog,elaborado, sagaz e instigante.
parabéns.

nefisto disse...

gostei das suas bolas de pelo. me acertaram bem perto de casa. o que me diz que vc se expressou bem. vou até ouvir a banda. obrigado.