Eu estava me despedindo de tudo que acabara de conhecer. Com ar solene, olhava pegadas no chão. Tentava registrar na memória cada lufada de vento gelado. Era meu último dia no paraíso e eu achava que sabia o que me esperava do outro lado do Oceano.
Estranho em uma terra estranha, andava sem entender uma palavra do que as pessoas falavam, sem conseguir decifrar o que o metrô me informava e os olhares que recebia. Isso me trazia uma forma complexa e estranha de satisfação. Não tinha obrigações, ali, tudo que fizesse, onde quer que eu fosse, era simplesmente porque queria, por prazer. Como disse um poeta, todas as coisas agradam a alma, mas essas são as coisas que agradam a alma bem.
Flanando pelo branco que cobria o país me perguntava por que havia demorado tanto, porém as coisas acontecem da forma que devem acontecer, não há nada a fazer para que isso não seja assim. De certa maneira, o fato de ter demorado tanto transformou cada simples refeição, cada despertar, numa liturgia pessoal. Não transcorreu minuto sem que eu o aproveitasse exatamente como acreditava que deveria.

Em minha última caminhada à sós, andei pelo meio da neve e não pela calçada, tomei o metrô, passei por onde fizeram um filme que gosto, escapei de um shopping incendiado, comi em uma barraquinha na rua, admirei pessoas, me perdi. Imprimi na neve cada pegada da minha insignificante aventura pessoal ao som de JESU. Seu clima glacial, suas dimensões continentais, sua grandiosidade ilustrava perfeitamente como me sentia enquanto ia construindo minhas memórias que seriam deturpadas já no dia seguinte de como tudo era incrível e espetacular e inesquecível ao meu redor.
Com Why Are We Not Perfect?, Opiate Sun, Conqueror e Heart Ache eu me deixava perder o caminho sem a necessidade de me preocupar com nada. Escondido sob camadas e mais camadas de agasalhos, com meus fones um pouco grandes demais nos ouvidos, observava enquanto os transeuntes encenavam para mim, alheios ao fato, um ballet soturno de despedida. Crianças corriam como em câmera lenta, garotas arrumavam seus cabelos muito loiros, homens fumavam seus cigarros, mulheres carregavam suas sacolas de compra. A vulgaridade daquele quotidiano extremamente simples estava travestida de beleza e onde eu estava em pé, onde quer que fosse, parecia o ponto de convergência de tudo que era importante no mundo.
Dias antes eu esperava horas em um aeroporto imaginando como seriam momentos como esse. Me conhecendo, já tinha perfeita noção que me seriam inestimáveis, cada um deles. E foram. Ao som dos acordes que vêm como ondas de um oceano que só não congela por estar em constante movimento, eu caminhava cortando o vento glacial. Ouvindo JESU e desbravando a minha própria Suécia conheci um pouco da Suécia de verdade. A Estocolmo que eu trouxe comigo de volta para casa é certamente ainda mais incrível do que a que deixei pra trás. A palavra mais inútil de todas se chama Saudade.
JESU - Conqueror
JESU - Farewell
JESU - Silver
JESU - Opiate Sun


1 elogio(s):
os textos que sucederam o velho continente tão um prazer a parte. legalzão
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