domingo, 3 de agosto de 2008

My, my, hey hey... Rock 'n roll is here to stay...


Eu passei a vida respondendo sem titubear quando me lançavam a insólita e irrespondível pergunta: "Qual sua banda favorita?" Nunca houve dúvida nem porém... eu respondia que eram os Beatles e pouco restava a discutir. De fato, cresci ouvindo Beatles, e quando digo cresci significa que ouvia o Fab Four quando tinha 2, 3 anos, minhas primeiras lembranças, que datam mais ou menos desse período, são absolutamente todas ligadas aos Quatro, a voz do John sempre soou aos meus ouvidos como a de um amigo que nunca de fato tive. Sempre soube todas as letras de cor e sempre cantava empolgado quando os ouvia, sem me importar com o quão desafinado sou. Beatles marcou minha infância, quando eu ficava deitado na minha cama, no quarto que dividia com minha irmã, cantando, num inglês inexistente imagino agora, mas que soava perfeito à época, Penny Lane, Here Comes the Sun e tantas outras, até a hora em que dormia. Certamente sonhava com os Quatro. Eles marcaram também toda minha juventude pois tive a sorte de morar num edifício onde todos meus colegas e amigos também eram fanáticos pela banda. Os Beatles marcaram a minha primeira paixãozinha boba e frustrada de adolescente, quando um amigo tocava nas rodinhas de violão, em surdina, uma música específica que haviamos combinado ser perfeita para minha pequena história.
Enfim, posso mapear meu crescimento à partir de qual disco era meu favorito em certo período e perceber, assim, meu amadurecimento e notar que, à medida que crescia, minha compreensão musical mutava, evoluia, se refinava. I've Got a Feeling, que era impossível aos meus ouvidos de criança, tornava-se uma das prediletas enquanto With the Beatles, o favorito de minha infância, perdia espaço para Let it Be e Abbey Road.
No decurso do tempo conheci inúmeras outras bandas, me apaixonei por diferentes estilos e gêneros, tive minhas bandas prediletas de momentos distintos, porém Eles ainda continuavam Hors Concours, os indisputados donos do trono de Banda da Minha Vida.
Se faço preâmbulo tão extenso e me demoro em explicar de forma tão prolixa e talvez entediante para o pobre leitor minha eterna história com os Beatles é só para dar a dimensão exata do que senti quando, pela primeira vez, já beirando os 30, ouvi uma outra banda, um artista, que me balançou de tal forma que nem mesmo os Quatro permaneceram incólumes, algo que sempre julguei inimaginável.
O dia 12 de novembro de 1945, em Ontário, no Canadá, deve ter sido um dia de Sol, leve brisa agradável e pássaros voando, um dia bonito como poucos são. Nesse dia nascia uma criança e seus pais o batizariam com o extenso nome de Neil Percival Kenneth Robert Ragland Young e esse bebê nasceria para ser um dos artistas mais completos, talentosos, sensíveis, influentes e importantes do resto da História.
Sobre os anos de sua juventude, embora sejam certamente importantes pro desenvolver do artista, pouco posso falar, certo é que, em algum momento, o jovem Neil percebeu que, se almejava notoriedade, além de músicas excelentes, o que sempre fluiu naturalmente em suas veias, alem de migrar para o sul, ele precisaria de um nome ligeiramente mais curto e assim escolheu aquele que ficaria escrito para sempre na história: NEIL YOUNG.
Diferente da minha história com os Beatles, consigo precisar exatamente qual foi a primeira música de Neil que ouvi, lembro exatamente minha reação, o quanto me maravilhava a cada segundo de Southern Man, como seu solo delirante em puro estado de frenesi me fazia querer tocar todas guitarras do mundo, como me empolgavam suas mudanças de tempo, ora mais cadenciado, ora totalmente desenfreado e impiedoso. E quando a música acabou eu só queria ouvi-la de novo, e de novo, e de novo. Eu queria todos os discos, todas as músicas, tudo, e repentinamente pesava agora sobre mim o medo do destino, esse pândego, ter me jogado nas mãos o que Neil Young havia feito de melhor e tudo agora fosse comedida, mas real decepção, era difícil imaginar que alguém que tenha gravado AQUILO fosse capaz de fazer música ruim, mas mesmo ele conseguiria fazer algo melhor que Southern Man?
Aos poucos meus downloads foram chegando e eu fui adentrando um recanto tão magnífico que dali não queria sair jamais, não me incomodaria se pra sempre eu só ouvisse Neil Young, ao contrário, era o que eu desejava, e todo passeio de carro, viagem, caminhada com o cachorro, namoro, tudo, era ao som do 'velhinho'. O que eu ouvia e ia aos poucos conhecendo de Neil Young teve o poder improvável de me fazer até mesmo recobrar parte de minha fé perdida na Humanidade, tamanho esplendor não poderia ser em vão.
De Southern Man fui para Heart of Gold. Dela fui para Look Out for My Love, e daí para Music Arcade, e quanto mais ouvia, mais fundos em meu espírito estavam cravadas as garras daquelas músicas impressionantes. Descobrir cada uma daquelas preciosidades era como encontrar um diamante em um lamaçal, como posso ter permanecido tanto tempo alheio à algo tão extraordinário?
Hoje, alguns anos e 44 discos depois, posso dizer tranquilamente que, se Neil Young não chegou a derrubar os Beatles de seu trono, pelo menos forçou-os a transformá-lo, o trono, em algo mais espaçoso, que coubesse um velho caipira canadense, pois, definitivamente, ele havia chegado para ficar. Muito melhor que escrever tudo isso e dar exemplos irrefutáveis de sua qualidade, importância e influência, já que ninguém lerá até aqui, seria apenas colocar algumas músicas, escrever Neil Young em letras garrafais e deixar o bom senso em cada um de vocês fazer o resto, mas não me contento! Eu tenho que dizer quão sobrenaturalmente extraordinárias são suas letras, sua frágil voz, seus notáveis arranjos, seus solos indomáveis, seus calmos e diáfanos violões.
Desde seus discos country até seus momentos do mais puro e nobre rock n' roll, Neil consegue injetar tanta vida no que faz, ser tão honesto, que é impossível permanecer impassível e é igualmente difícil escolher entre um ou outro disco para recomendar sem ser injusto com todos os outros, logo, darei a vocês o conselho mais precioso que alguém já lhes ofereceu e nem mesmo cobrarei nada em troca: OUÇAM NEIL YOUNG. AGORA.
Sim, é melhor começar já, a vida é muito curta pra tanta beleza.


Neil Young - Southern Man
(do disco After the Goldrush)



Neil Young - Music Arcade



Neil Young - Big Green Country



Neil Young - Trans Am
(do disco Sleeps With Angels)



Neil Young - Driveby
(do disco Sleeps With Angels)




Discografia:

Neil Young (1969) * * * * *
Everybody Knows this is Nowhere (1969) * * * * *
After the Goldrush (1970) * * * * * √
Harvest (1972) * * * * *√
Time Fades Away (1973) * * * *
On the Beach (1974) * * * * * √
Tonight's the Night (1975) * * * * *
Zuma (1975) * * * * * √
Long May You Run (1976) * * *
American Stars 'n Bars (1977) * * *
Comes a Time (1978) * * * * * √
Rust Never Sleeps (1979) * * * * * √
Live Rust (1979) * * * *
Where the Buffalo Roam (1980) * * *
Hawks and Doves (1980) * * * *
Re-ac-tor (1981) * * *
Trans (1983) * * * *
Everybody's Rockin' (1983) * *
Old Ways (1985) * * *
Landing on Water (1986) * *
Life (1987) * * *
This Note's for You (1988) * * *
Freedom (1989) * * * * *
Ragged Glory (1999) * * * * *
Arc-Weld (1991) * * * * *
Harvest Moon (1992) * * * * * √
Unplugged (1993) * * * *
Sleeps With Angels (1994) * * * * * √
Mirror Ball (1995) * * * * *
Dead Man (1996) * * * *
Broken Arrow (1996) * * * * *
Year of the Horse (1997) * * * *
Silver & Gold (2000) * * * *
Are You Passionate? (2002) * * *
Greendale (2003) * * * *
Prairie Wind (2005) * * * *
Living With War (2006) * * * * *
Live at Fillmore East (2006) * * * * *
Live at Massey Hall (2007) * * * * *
Chrome Dreams II (2007) * * * * *

√ - (Volume-11 pick)

3 comentários:

Júnior disse...

realmente, a vida passa e as vzs nos deparamos com algo tao extraordinario que pensamos ''por que n conhecia isso antes'', eh o que aconteceu comigo em um dos passeios em Sampa com Júnior(Noise), onde tive o privilegio de ser ''apresentado'' ao velhinho, na melhor forma, ele foi apresentado a mim, e ver que com coisas simples e com muita paixao, pode-se criar musicas inesqueciveis.

Z´s disse...

Algumas coisas parecem mesmo serem irrefutáveis. Beatles é uma delas. Quando, em uma conversa informal, vc me disse que uma das principais lembranças de sua infância, triste, porém marcante, era o anúncio da morte de Lennon, pensei "que cara prepotente... Esta é a MINHA principal lembrança!"... Além de irrefutáveis, certas coisas tornam-se intocáveis.

Meu melhor amigo, talvez o único que meus 31 anos reconheceram como tal, incrivelmente se chama Cortez e é meu guitarrista. Talvez sua paixão por Young possa se equiparar com a do Noise. E eu nunca entendi profundamente como um canadense pudesse exigir tanto respeito. E então tive uma aula sobre Neil Young. De conhecer seu trabalho, passou a ser uma das mais importantes influências. Em minha música, minha vida e a forma de entender ambas.

Celso, compartilho contigo meu vício por Young. Texto primoroso! À altura das melhores dissertações!

Z´s

Giuliano Machado disse...

Finalmente tive tempo para ler o artigo, 1ª semana de aula é um saco..

Noise, novamente, parabéns, seus textos são muito bons, e depois de ler esse artigo fiquei com vontade de de baixar mais e mais discos do Neil Young, hehe

PS: Fiz esse comentário ouvindo Neil Young, hehe

PS²: Não sei se você curte um rock mais pesado, mas adoraria ver você escrever sobre Black Sabbath ou Led Zeppelin, se você curtir..

Abraços, o blog ta foda.