segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

days of being wild


Imagine: o deserto sem fim, calor, escorpiões, areia movediça, pegadas frescas de leopardos, ossos, cabeças e chifres de animais mortos por todos os lados. Você está sozinho e observa à distância um nativo caminhando e percebe que presencia uma cena que se repete há séculos da mesma forma e, nesse dia, como a centenas de anos atrás, tudo está igual, a única diferença é você ali, testemunhando a vida na sua forma mais simples e interferindo com a inóspita e dura harmonia da paisagem.

Assim como meses antes eu me perdia em caminhadas pela neve no frio polar, dessa vez eu desbravava um dos maiores desertos de todos e sentia pesando em mim a obrigação de registrar em detalhes paisagens que certamente ninguém fora daquela tribo tinha jamais percebido.

Quando o Sol se punha, antes da noite cair, o céu se coloria surpreendentemente, cores bem distintas do cinza nefasto que consigo vejo agora entre os totens de concreto das cercanias. À noite, constelações que nem mesmo se imagina brilham no horizonte que não tem mais fim e, se você tem sorte, estará em companhia de um nativo que contará histórias nas estrelas e te ensinará a não se perder no deserto, se guiando apenas por elas. Com sorte você não se esquecerá jamais disso.

Havia dias, eu caminhava sozinho por essa imensidão, me sabendo cercado por toda sorte de coisas que ameaçariam a vida. Havia dias que eu saia acompanhado por um nativo que me levava pelas mãos por lugares que eu não deveria me aventurar sem companhia. Observar um lugar como esse, sem propriedades, sem proprietários, sem a má mão civilizada, no continente que deu início à tudo isso que chamam de vida é, por definição, libertador.

Eu, como sempre, me impregnava de música em todos os momentos que podia e, muito embora muitas vezes a música apenas servisse para criar um contraste intenso com tudo que me cercava, ela me lembrava quem eu era, de onde eu vinha. Me lembrava que, ali, eu não era quem eu sou aqui. Que eu lá era tão estranho, com minhas tatuagens, quanto tudo aquilo me era único e precioso.

Me lembro de mais de uma noite insone por culpa dos cães e das hienas, noites nas quais eu ficava deitado em minha tenda, em meu catre, vendo com uma lanterna as formigas que entravam pelas frestas e temendo mais escorpiões sob minha cama, ouvindo Cult of Luna na escuridão fria do deserto. A profundidade e escuridão da noite africana, perdido no meio de lugar algum, entre tribos e nativos, de alguma maneira, tudo se conectava e, no teto da minha tenda, acordado, eu projetava sonhos e resquícios do dia com a trilha sonora densa e profunda de Echoes, Vague Illusions, Finland e, sob influência do medicamento para malária, quando por fim dormia, tinha pesadelos monumentais.

O que eu vi, o que me foi dado de presente, nesse mês com os nativos, é indescritível. Minhas concepções a cerca do que é a vida, do que se precisa para ser feliz, do que é SER feliz jamais serão as mesmas. Nunca conheci pessoas mais livres, felizes, de corações tão bons e puros que aquelas. Guardei muita bondade e beleza de cada um deles em meu coração. Eles não serão apenas nomes na última página amarelada do meu caderno de anotações, mas sim, para sempre, ícones de liberdade, alegria, plenitude... mesmo que tenham constantemente desaprovado meu gosto musical.

Cult of Luna - Finland

Cult of Luna - Echoes

2 comentários:

Otávio Pacheco disse...

Incrível este relato.

CPJr disse...

foi uma experiência incrível... :)