
Me lembro bem. Fiz a mala com o que precisava, não com o que queria, mas com o que seria útil. Subi a pedra pra onde tinha um chalé antigo, da família, modesto, de mobília rústica, afastado da cidade. Da varanda frontal, via apenas o mato, árvores altas, envoltas em cipós e neblina, no meio de tantas árvores a noite parece chegar mais cedo. Pela janela do quarto, via o horizonte até onde o olho enxergava, ou até onde a névoa permitisse.
O fogão à lenha me forçava, além de programar minhas refeições com antecedência, a ter sempre madeira cortada. As noites frias eram preenchidas pelos sons da fauna que me cercava e fantasmas do meu passado. Eles não arrastavam correntes, não mudavam coisas de lugar, apenas sopravam frases mal digeridas no meu ouvido, dividindo minha atenção com as vozes que cantavam nos headphones.
As primeiras semanas foram difíceis, exigiram de mim adaptação, paciência e, sobretudo, sanidade. No isolamento da montanha enterrei meus amigos, mesmo os vivos. Ignorei a família, isolei-me voluntariamente. Durante dias o único som que ouvia, além dos que vinham do bosque, eram os dos meus passos no chão de madeira, além dos sussurros fantasmagóricos que eu esperava suprimir lá.
As noites clamavam pelo vinho e toda variedade de bebidas que eu, convenientemente, trouxera comigo. Muitas vezes, nas madrugadas, cansado do monólogo das vozes nos ouvidos, respondia em voz alta e repetia cenas e diálogos desastrosos sob influxo do álcool. Quando mais alterado, quebrava garrafas contra a pedra, planejava, no frio daquela escuridão, atear fogo à cidade e todos nela pra aquecer um pouco minhas mãos do frio lá em cima.
A barba cresceu e nunca mais se foi, joguei fora o par de sapatos e fiquei descalço e sem camisa e nem me importava. Tentei em vão escapar dos meus fantasmas e de meu próprio coração tirano. Subi a montanha um mas, quando desci, era outro.
Enquanto essa história do meu passado é inteiramente imaginada e nada disso de fato ocorreu, são histórias assim que eu gostaria tivessem acontecido comigo quando, no conforto perigoso da minha vida, ouço Mount Eerie, o veículo atual através do qual Phil Elverum impõe sua poesia contra o mundo.
A música, sempre boa, pra mim é apenas moldura para suas letras desajeitadas e incríveis. Por vezes a música termina meticulosamente na última frase, evidenciando quem é a estrela. Não é a primeira vez que falo sobre Mount Eerie e na outra ocasião abri com uma frase que me foi dita por um amigo: “Tudo que Phil Elverum toca é ouro”. É o suficiente pra deixar claro o quão precioso, raro e único é tudo que vai pelo nome de Mount Eerie.
Mount Eerie - Moon Sequel
Mount Eerie - With My Hands Out

0 elogio(s):
Postar um comentário