sexta-feira, 2 de agosto de 2013

meu tempo na Montanha


Me lembro bem. Fiz a mala não com o que queria, mas com o que precisava, que seria útil. Subi a pedra, fui pro chalé antigo, longe da cidade. Via de lá apenas mato, árvores imensas, envoltas em cipós e neblina. Na natureza, no meio de tantas árvores, a noite chega cedo. Pela janela do quarto o horizonte vai até onde o olho enxerga, ou até onde a névoa permite.

O fogão à lenha força, além de pensar com antecedência, a ter madeira cortada. As noites frias são preenchidas pelos ruídos que cercam e fantasmas do passado. Fantasmas não arrastam correntes, não mudam coisas de lugar, apenas sopram frases mal digeridas no ouvido, distraindo a atenção das vozes que cantam nos headphones.

As primeiras semanas são difíceis, exigem adaptação, paciência e, sobretudo, sanidade. No isolamento da montanha enterrei meus amigos, mortos e vivos. Ignorei família, isolei-me voluntariamente. Durante dias o único som que ouvi vinham do bosque, de meus passos discretos e descalços no chão de madeira velha, além dos sussurros dos fantasmas.

As noites trazem vinho e tudo que, convenientemente, se tem à mão. Vezes e vezes, nas madrugadas, cansado do monólogo das vozes nos ouvidos, respondia em voz alta revivendo cenas desastrosas. Quando alterado, quebrava garrafas contra a pedra, planejava, no frio da escuridão, atear fogo à cidade e todos lá pra aquecer as mãos lá em cima.

A barba cresceu e nunca se foi, joguei fora o par de sapatos e, descalço e sem camisa, nem me importava. Tentei em vão escapar dos fantasmas e de meu próprio coração velho. Subi a montanha um mas, quando desci, era outro, porém eu mesmo.


Mount Eerie - Moon Sequel

Mount Eerie - With My Hands Out

2 comentários:

Marcelo Alonso disse...

Foda, como de costume. Parabéns!

CPJr disse...

Gracias!