
Eu, enquanto crescia, dormi no quarto dos meus pais muito mais do que seria sadio pra qualquer criança. Toda noite, num colchão ao lado da cama, pegava no sono ouvindo o radinho que meu pai tinha trocado por um canivete com seu irmão. Algumas noites o que ouvia eram crônicas policiais, noticiários sensacionalistas da meia noite, programação, imagino, clássica das rádios AM naquela época, antes do Aqui e Agora trazer o gênero pra TV. Outras noites ficávamos no escuro do quarto ouvindo a programação light, músicas easy listening, FM clássica, e essas eram quase as melhores.
Aquele radinho prateado certamente teve grande parcela de responsabilidade no meu costume de andar todo o tempo com phones de ouvido e certamente é a melhor lembrança que posso forjar de meu pai. Volta e meia ouço alguma música que me lembra dessas noites, seja uma canção melancólica do James Taylor ou A Horse With No Name, do America. Nostalgia se abate sobre mim nesses momentos, às vezes até marejam-me os olhos, mas, sem saudosismo, sacudo tudo isso como poeira e logo me ponho a pensar em coisas mais úteis.
É perfeitamente compreensível que seja acometido por essas sensações quando, de súbito, ouço uma música que me lembre desses momentos, o que, porém, surpreende é ouvir um disco lançado em 2010 e ser transportado imediatamente ao escuro daquele quarto, deitado naquele colchão, ouvindo aquele radinho e Infinite Arms do BAND OF HORSES teve esse poder.
Logo ao começo do disco, com Factory, Compliments e Laredo, a sensação me acomete e nostalgia por algo novo me surpreende. Notoriamente, Ben Bridwell também aprendeu bem suas lições de um radio. Infinte Arms parece retirado de minhas lembranças infantis, soa em seus melhores momentos como pedaços de americana romantizada. Seu leve reverb característico daquele período e sua forte veia pop refletidos por um espelho empoeirado, conferem um ar ao mesmo tempo novo e familiar. Faixa após faixa, desde a primeira audição, tenho a sensação de já ter ouvido o disco antes, seja um arranjo que me lembre Beach Boys, vozes que me lembrem Crosby, Stills, Nash and Young ou simplesmente um arranjo bastante peculiar.
Às vezes fico em luto por uma infância que, sinto, não foi vivida em todo seu potencial, mas, pelo menos, consigo resgatar, transformar alguns momentos fugazes em boas memórias, fantasiosas ou não. Em meio às minhas lembranças, só espero que, em algum canto, numa dessas noites, tenha uma criança num quarto escuro esperando o sono chegar ouvindo Infinite Arms no radinho do pai, mesmo que, agora, ele não faça idéia do que isso seja.
Band of Horses - Factory
Band of Horses - Compliments
Band of Horses - Laredo

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